Os vinte diários de Carolina viraram textos publicados em jornais, revistas e divulgados até mesmo em rádios. O livro foi traduzido para mais de 13 línguas. A rotina, a pobreza, a fome que chegou a irritar Audálio Dantas  de tanto que foi relatada, (o jornalista que tocou o mínimo nessa riqueza para que ela fosse conhecida do mundo), foram os atores principais de uma protagonista que tinha tudo para não ser ’ninguém’.

 

     Você pode achar que é exagero, mas eu li apenas a Apresentação e o Prefácio, e já fiquei marcada pelo que lá estava. 

 

     Na minha ignorância de leitora amadora, pensava que Quarto de despejo fosse um livro mais recente, coisa nova e que está fazendo muito sucesso. Mas não. Um livro lançado em 1960, mas escrito anos antes, ao longo da vida de uma pessoa simples, que não conseguiu ir além do segundo ano do ensino fundamental. 

 

     Audálio fez o máximo possível para não mexer no texto, ‘respeitando’ os erros, a forma coloquial e tão sincera de escrever de Carolina, corrigindo o suficiente para que fosse entendido. E olha que ainda assim recorri muitas vezes ao dicionário…

 

      Não preciso dizer que foi simples, isso já é notório, mas o que deve ficar explícito e em bom português, é que Carolina foi sábia, tinha princípios, uma personalidade forte e convicções precisar sobre a sociedade, a realidade e seu mundo. A linguagem era simples, mas sua percepção quanto a tudo o que acontecia ao seu redor era complexa e muito apurada. 

 

      Descrevia os relacionamentos, as brigas de casais e vizinhos, os problemas de vícios e suas consequências. Sabia como funcionava o pensamento e o sentimento das pessoas. E não costumava errar, ainda que suas palavras pertencessem apenas a ela e a seus cadernos. 

 

 

“É sabido que pessoas que são dadas ao vício da embriaguês não compram nada, nem roupas. Os ébrios não prosperam. “ Pág. 17

 

“Há as mulheres que os esposos adoece e elas no penado da enfermidade mantém o lar. Os esposos quando vê as esposas manter o lar, não saram nunca mais.” Pág. 20

 

      Consciente de sua condição e da situação dos filhos, não queria confusão, apenas catar seu papel de cada dia e tirar o suficiente para comer. Andava suja, sem lar digno, sem ter quase o que vestir, sem calçar. Trabalhava de noite enquanto os filhos dormiam. E ainda assim foi invejada e atiçada pelas vizinhas. Talvez porque mesmo diante de tanta dificuldade, não perdia seu rumo. Era mulher direita e convicta do que era certo, do bom e do ruim, do mal e do bom, palavra que tanto custava a usar.

 

      E escrevia. A toda hora que podia, escrevia. Sua alegria, o que preenchia sua alma, sua força, seu sustento, era escrever.

 

“Passou um senhor e perguntou- me: O que escreve? 

Todas as lambanças que pratica os favelados, estes projetos de gente humana.” Pág. 23

 

 

“Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.” Pág. 24

 

     Com tudo de difícil que tinha para lidar diariamente, ainda via modos de tentar melhorar. Em nenhum momento você lerá Carolina reclamando da vida, do destino. Acho até mesmo que ela foi um tanto sutil em descrever as desgraças e dores do dia a dia. Acredito que não fui capaz de entender nem metade do que ela sentia e sofria. 

 

“Quem vive até a hora da morte chegar é herói. Porque quem não é forte, desanima.” Pág. 61

 

“ Hoje eu estou cantando. Estou alegre e já pedi aos vizinhos para não me aborrecer. Todos nois temos o nosso dia de alegria. Hoje é o meu.” Pág. 24

 

“Eu fiz uma reforma em mim. Quero tratar as pessoas que eu conheço com mais atenção. Quero enviar um sorriso amável às crianças e aos operários.” Pág. 28

 

“Que Deus ilumine os brancos para que os outros sejam feliz.” Pág. 30

 

“…Não havia papel nas ruas. Passei no frigorífico. Havia jogado muitas linguiças no lixo. Separei as que não estavam estragadas…) Pág. 93

 

     E a consciência política? Que enorme lição ela nos deu ao fazer críticas dos políticos com o mínimo de informação que tinha. Ainda que o acesso à informação fosse maior, com certeza muitos não tinham sua frieza em entender as ações daqueles que estavam ali apenas para obter votos. Uma lição a nós, desse tempo de tantas fontes e poucas reflexões.

 

     Ela falava de tudo. Sem tv, com um rádio que funcionava apenas para ouvir música logo cedo, quando funcionava, Carolina fez relatos históricos como sobre a ida do homem para a lua, a copa do mundo na Suécia e tantos outros acontecimentos. 

 

“Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilizados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol.” Pág. 122

 

     Esse livro é um verdadeiro relato de sobrevivência, mas não de uma pessoa apenas, e sim, de uma comunidade. O registro fiel da vida de pessoas esquecidas, pessoas ’sujas’, que davam nojo, mas que poucos tentavam ajudar a melhorar. Cada um por si. 

     Um livro para ser estudado por muitos anos ainda…

 

 

“O carteiro. Ele ainda não cortou os cabelos. Ele estava com os olhos vermelhos. Pensei: será que ele chorou? Ou está com vontade de fumar ou está com fome! Coisas tão comum aqui no Brasil. Fitei seu uniforme descorado. O senhor Kubistchek que aprecia pompas devia dar outros uniformes para os carteiros.” Pág. 78