Uma história diferente, mas igual, que não é real, mas não podia ser mais verdadeira. Ponciá Vicêncio não tinha grandes ambições nem sonhos. Talvez pudéssemos dizer que não tinha quase nada. Quase não tinha casa, quase não sabia ler (aprendeu de teimosa), quase não tinha o que comer. Mas tinha amor, amor de mãe.

 

Uma moça preta de vida simples que, quando menina, gostava de tudo o que fazia parte de sua realidade: da roça, do rio, dos pés de pequi, das canas, dela própria. Do pai quase não se lembrava, morava com a mãe e o irmão. O pai, preto e serviçal, era “pajem do sinhô moço, escravo do sinhô moço, tudo do sinhô moço, nada do sinhô moço”. Sinhô moço era criança como ele e, um dia, mijou na boca do pai de Ponciá, porque ele fazia o que queria com seu ‘brinquedo’. Os brancos ficaram admirados de ver que preto também podia aprender as letras. E o pai de Ponciá aprendeu.

 

Ela cresceu e sonhou em não viver mais na pobreza, cansada de trabalhar o barro. A vida de preto era diferente da vida do branco. Sonho da cidade, ainda que mal falada pelos que lá foram. Ela foi. Foi conhecer a cidade com medo dos brancos que encontraria por lá. Juntou com um homem que a maltratava, mas gostava dela. A vida era difícil, e Ponciá era só lembranças. Aos poucos, foi se apagando, apagando e sua vida tornou-se lembranças, apenas isso. Não sentia mais, não comia mais, não vivia mais. 

 

Vida vazia. Trabalho para os outros. Viver para os outros. 

 

Conceição Evaristo retrata a vida do povo preto, discriminado pela sociedade e pela realidade de mundo, onde o mundo dos brancos não enxerga outras cores. É a chamada 'escrevivência', termo criado por ela ao falar da escrita da vivência de pessoas pretas. As palavras que Conceição seleciona nos fazem entrar na história de modo a ver e viver cada diálogo, cada dor sofrida e cada mínima alegria conquistada. Palavras que trazem o dia a dia dessa gente que sofreu e ainda sofre com a mania de tentar sonhar grande num contexto de preconceito e sacrifício.

 

“A alegria de ser preso por um soldado Negro. Sentia-se também preso em cada nego preso.”

 

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