Livro de Jane Campion, Kate Pullinger - 1993
Muda, ela gesticula como uma bailarina. O piano é tudo que ela tem, e tudo que ela mais quer. Amor, só pela filha.
Ada é uma mulher de uma época extremamente patriarcal, quando as mulheres viviam para se casar e obedecer, os pais deveriam arrumar um marido para as filhas e não ter a vergonha de ter uma solteirona em casa. Foi exatamente o que aconteceu com Ada, mas não pense que esse é mais um livro clichê que mostra a rebeldia da mulher em ter que obedecer as regras do mundo. É muito mais que isso.
Muda desde criança, devido a um trauma vivido, Ada tem uma filha, mora com o pai e é dona de um dom extremamente aguçado: tocar piano. Sua relação com o instrumento vai muito além da musicalidade em si, pois é por meio dele que Ada se expressa e se sente completa.
Resultado de um casamento arranjado, onde seu pai a vendeu para um noivo que vivia muito longe de sua casa, mais precisamente em uma ilha, com povos originários, Ada e Flora, sua filha, são transportadas para um mundo sem luxo, sem infraestrutura, sem civilidade, onde as regras são ditadas pelo povo local. Alisdair Stewart, seu marido, nunca a tinha visto e tenta de todo modo diminuir a enorme distância psicológica e física entre eles.
Na mudança, Ada fica sem o piano e sente-se como se tivessem tirado uma parte dela e fará de tudo para tê-lo de volta. Com personalidade forte e em uma sequência de descobertas de si mesma, Ada faz um pacto com Baines, amigo de Alisdair que mora na ilha, para que pudesse ter seu piano de volta. Sua integridade moral e física estava em jogo agora.
Ao acompanhar toda sua trajetória, ficamos na expectativa do momento em que ela falará novamente, imaginando que poderá ser num ato de raiva ou grande alegria. Flora é sua voz, comunicando às pessoas as intenções, gostos e pensamentos da mãe, e às vezes, colocando os seus no lugar dos dela.
A história nos traz assuntos polêmicos como a opressão racial, étnica e de gênero, além de abordar a busca incessante do homem por obter sempre mais posses. Jane Campion nos prega uma peça ao percebermos que no fundo, no fundo, estamos torcendo para que todos os personagens saiam bem dessa história, uma vez que as maldades de cada um é justificada por sentimentos sinceros.
