Pobre Isabel, quando ganha um livro todinho dedicado à sua vida, à sua atuação na história do nosso Brasil, já começa com o título a dedurar que nem tudo foram flores… aliás, quase não houve flores. Mary Del Priori nos traz uma história realmente não contada. Fatos que complementam o que aprendemos sobre a época do império no Brasil. Não, Isabel não foi apenas a princesa que aboliu a escravatura!

Herdeira de um trono imperial por acidente, literalmente. Era muito difícil que chegasse seu momento de governar, mas seus dois irmãos mais velhos faleceram antes que pudessem assumir a governança, e sobrou para Isabel. 

 

“Aos 4 anos, Isabel foi reconhecida como herdeira da Coroa. Cresceu como a princesa que teria que fortalecer o princípio monárquico, apesar de ser mulher.” Pág 43

 

Época de casamentos arranjados, de mulheres que deveriam aprender tarefas domésticas e ter estudo apenas para encantar o futuro marido, Isabel teve que assumir algo que ainda nos dias de hoje é visto com olhos atravessados pelo povo. Além disso, como membro de monarquia, seu casamento deveria ser arranjado com um príncipe de país parceiro, para que se estreitassem ou reafirmassem os laços de proximidade e amizade entre os países. 

 

“As relações dinásticas tinham também o objetivo de equilibrar potências, evitando guerras dentro da Europa e criando famílias reais supranacionais.”  Pag 19

 

“Apenas a moral, a vida doméstica e a educação dos filhos poderiam dar-lhe (às mulheres) alguma forma de gratificação.” Pág. 43.

 

“Afinal, Adão não saiu das entranhas enfermas, mas das mãos de Deus. Já a inferioridade feminina era um dado natural, sem remédio.” Pág 43 

 

Nisto, veio da Europa o príncipe Gastão, um francês gente boa, mas que não conseguiu mostrar ao seus familiares e ao mundo sua verdadeira bravura e inteligência. Gastão era da família Orleans, o que significava superioridade, força, energia, e que lutava contra a sociedade burguesa, decadente e efeminada. Bem, esperavam que ele fosse assim. Ele até buscou nas lutas e batalhas demostrar sua bravura, só que não deu. Veio morar no Brasil, terra ainda estranha e de fama controversa na Europa. Contudo, para ele, foi a salvação de sua dignidade. 

E não foi só esse francês que veio com tudo ao Brasil. Nesse tempo, a cultura francesa chegou com força e invadiu tudo. Do pão (francês) ao vestir-se, passando pelos escritores (literatura), pela comida (glaces, patês). Saíram os Sinhás para entrarem as “Madames” (de mademoiselles).

Nenhum dos dois pombinho possuía exatamente uma beleza física a se admirar, mas, ao se conhecerem, deu muito match. 

 

A dona do pedaço, só que não

A iniciação de Isabel como responsável pelo Brasil se deu aos poucos, a cada ausência do país do Imperador Pedro II, o que dificilmente ocorria. E ela não sabia o que era governar. Até porque, no fundo, seu pai não confiava em sua sucessora para tomar conta das rédeas da nação. Em todo o tempo que ela teve que administrar, receber as pessoas, decidir ou mandar, foi na força bruta, sem jeitos de imperatriz.

Ela queria mesmo era cuidar da família, ter filhos, ser mãe. Sua vocação para política não existia, entretanto, ela teve que assumir. Confesso que, pela forma como Mary Del Priore nos conta, admirei a coragem de Isabel em, mesmo sem nenhuma instrução e tendo a maioria contra seu governo, ela encarou e fez o que pode.

Precisamos assumir  que ela foi admirável, dando a cara a tapa ao não negar o trono, principalmente considerando que os parlamentares eram todos homens e sua vida era rodeada deles. Mandões, querendo fazer do jeito que achavam que deveriam. Talvez, porque era a época do parlamentarismo às avessas, onde o imperador tinha sim, força e voz. Enquanto Dom Pedro II estava fora, entre o machismo reinante, a princesa se ocupou do poder. Os partidos liberal e conservador faziam as malandragens para seguir no jogo.

 

E os escravos?

O Rio de Janeiro a capital do Império escravista, e onde o preto era visto como um problema social que sujava a imagem do país. Era preciso conter sua influência cultural, “povos supersticiosos, estúpidos, de costumes corrompidos.” Podiam contaminar as cidades. 

O início da luta contra a escravidão veio com a criação da lei que proibia o tráfico internacional de escravos, Lei Eusébio de Queiroz. Época em que chegavam entre 33 e 37 mil escravos por ano no Brasil. 

Sabemos que houve muitas rebeliões negras lutando pela liberdade, contudo, muitos ‘brancos’ também se incomodavam com a situação dos escravos. Era uma enorme vergonha perante o mundo a realidade dos negros no Brasil. Mas quem pensa que a princesa foi uma defensora determinada e decidida a abolir a escravidão de qualquer jeito se engana. Até a chegada do momento memorável da assinatura da Lei Áurea, muita, mas muita coisa aconteceu. Inclusive despreocupação com a população como um todo, viagens reais pelo mundo enquanto a situação dos negros era deplorável, cuidados pessoais e familiares frente a uma nação em atraso e total descaso com os rumos do Brasil. Ela NÃO gostava de reinar!

Para terem uma ideia, enquanto Dom Pedro II estava fora do país por problemas de saúde, Isabel, Gastão e os filhos resolveram passar uns tempos na Europa… mais de um ano, gastando, gastando, e o Brasil afundando. Ao voltarem, a campanha pelo abolicionismo estava em pleno andamento. Ela não tinha pra onde correr e ainda assim demorou para fazer algo, ainda que fosse a favor da abolição. 

 

“Muitos negros possuíam escravos: cativos eram um investimento como outro qualquer.” Pag 130

 

Mary Del Priore mostra como era a situação do Brasil, que precisava de educação, saneamento, mais liberdade para as províncias, amplo direito ao sufrágio. Ela faz uma incrível descrição de toda a época, tanto brasileira como europeia. Descreve a ‘beleza’ das cidades brasileiras, para não dizer outra coisa…  É um livro que nos acrescenta muito sobre costumes e realidade do dia a dia, tanto social, como arquitetônica, cultural, econômica.

Como base para a história, Priore utiliza as cartas trocadas entre todos. Principal forma de comunicação da época, o livro é entremeado de conteúdo das cartas de Gastão a seu pai e vice-versa. Pois funcionavam como verdadeiros confessionários onde eles falavam sobre as situações sociais, sentimentais, as brigas em família e pediam conselhos. Também há registros das cartas trocadas entre Isabel e seu pai, quando separados pelo oceano.

 

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A autora: Mary Del Priore é historiadora e escritora, reconhecida como uma das principais referências em história social e cultural do Brasil. Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorada pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo rigor metodológico e pela capacidade de traduzir a pesquisa histórica para além do meio universitário.

Publicou mais de 50 livros, entre obras autorais, coletâneas organizadas e ensaios. Sua produção intelectual foi amplamente reconhecida com importantes prêmios literários, incluindo múltiplas edições do Prêmio Jabuti, um dos mais relevantes da literatura e do pensamento brasileiro. Mary Del Priore também atuou no ensino superior, lecionando em universidades como a USP e a PUC-Rio.

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