O quê você entende quando falam em socialismo, liberalismo, individualismo, coletivismo…? 

    Em O caminho da Servidão, Hayek argumenta de modo incisivo sobre o que são essas formas de organizar o poder do Estado, apresenta suas características, suas consequências (no caso do socialismo, só negativas, segundo ele), de onde vieram e, quase, para onde vão.

    Essa edição traz os prefácios de edições anteriores e é interessante ver como o assunto foi se “revelando” na prática ao longo do tempo. Ele mesmo, no prefácio da edição de 78, afirmou se surpreender com o quanto já sabia na primeira publicação e o quanto muita coisa se confirmou.

 

“Coletivismo: argumento emocional e imediato. Tudo em nome da igualdade e da erradicação da pobreza.

Individualismo: argumento sutil e sofisticado, racional indireto.”

 

    Hayek foi um economista (que escreveu esse livro de cunho especificamente político) estava extremamente incomodado em ver os rumos que estavam tomando sua querida Inglaterra nos idos de 1940. O livro foi publicado em 1944 e veio como uma bomba filosófica sobre a política-econômica que se desenvolveu em países vizinhos e que estavam afetando os pensamentos da alta sociedade cultural inglesa. O objetivo de Hayek era alertar o povo inglês para o caminho que seguiria caso fosse na mesma linha da Alemanha totalitarista. Caminhos diferentes em diversos países, contudo, diferentes nas classificações e denominações, mas muito parecidos e próximos nas ações.

 

 “desgosto que me causava a interpretação totalmente errônea dada pelos círculos progressistas ingleses ao caráter do movimento nazista”. Pág. 49

 

    Hayek não perdeu tempo e foi logo colocando em pratos limpos o que era, o mal que fazia, a tragédia que não evitava e a falsa solução de igualdade social que o socialismo prometia. Interessante como ele traz capítulo a capítulo, de modo bem organizado, as diversas frentes de temas que o coletivismo planejado trazia à sociedade. Sem agressividade ou baixeza de qualquer forma, ele apontou as falhas do nazismo alemão e como se deu a transformação política alemã que culminou na força de Hitler. Contudo, Hayek também mostrou as decepções e pensamentos daqueles que não seguiam a ditadura nazista, mas eram obrigados a cumpri-la. 

 

    "A coordenação das atividades humanas por intermédio de uma direção central e por cooperação voluntária são caminhos que levam a direções muito diferentes: a primeira, à servidão; a segunda, à liberdade." Pág. 21 

 

    Hayek aponta as vantagens, qualidades e benefícios do individualismo na economia, na política, na moral social e individual. Sua trajetória filosófica tem o objetivo de abrir os olhos da sociedade quanto ao erro do nacional-socialismo e como se estruturaria a comunidade voltada para o pensamento de ganho individual, de esforço próprio em busca da melhora de vida, do avanço econômico, de produção, de lucros e vantagens competitivas quando se está em uma nação liberal. O que não significa isolamento do Estado nas ações sociais.

    O governo ganhou espaço considerável em diversas nações potência, ainda que o discurso seja a favor do crescimento liberal. Aumento considerável das privatizações, mas a comunidade intelectual e individualista concorda que o governo deve cada vez mais agir com programas contra a pobreza, proteção ao meio ambiente e promoção da igualdade.

Hayek mesmo, como economista, estaria mais para um sucesso socialista do que liberal. Mas ele mesmo afirma 

 

“Não consigo descobrir nenhuma razão para que o tipo de sociedade que me parece desejável deva favorecer maiores vantagens a mim do que à maioria do povo deste país.” 

 

Assim foi educado, assim se formou como economista, mas não é isso que defende.

 

“É a escolha entre entre um sistema em que a vontade de poucos decida a quem caberá isto ou aquilo e outro em que essa parcela dependa, pelo menos em parte, da habilidade e da iniciativa dos indivíduos e, também em parte, de circunstâncias imprevisíveis.” Pág. 162

 

    Contudo, apesar de todo o esforço do autor de explicar item a item as características do socialismo e do liberalismo, ao seguir a leitura fica muito claro que a confusão ideológica que a maioria das pessoas faz atualmente tem sua base fática. Ao longo da história, termos claros de uma ideologia foram utilizados pela outra com o intuito exato de confundir as pessoas e trazê-las para o lado que se queria. As explicações de um se misturavam com os objetivos do outro, mas tudo de modo distorcido, moldando na população o que era o “melhor” para a coletividade.

 

“A mais importante transformação que um controle governamental amplo produz é de ordem psicológica.” Pág. 42

 

“Em suas tendências paternalistas, nacionalistas, de adoração ao poder, ele (conservadorismo) costuma revelar-se mais próximo do socialismo do que do liberalismo.” Pág. 40

 

   O peso do livro está claramente delineado em cada página ao serem explícitados os problemas, prejuízos e desvantagens do mundo socialista. A servidão é, literalmente, o ponto crucial do caminho de quem segue essa estrutura de governo. Não é à toa que o livro tornou-se uma das obras de referência na defesa do liberalismo clássico.