Enquanto o Brasil admirava a obra “Os Sertões”, pouquíssimos imaginavam a agonia em que andava seu autor, o escritor, jornalista e engenheiro Euclides da Cunha.
As coisas não andavam bem em sua casa, mais precisamente em seu casamento. Ele quase não falava com sua mulher, Dona Saninha, e quando falava era de forma grosseira, sem jeito. A situação fez com que a tal da desonra rondasse a casa e tumultuasse tudo.
Olha a situação: crise no casamento, três filhos, marido que mal conversa com a esposa e esposa que vive (infeliz) para a família, até que… Euclides precisa se ausentar por meses em razão do trabalho como engenheiro e Dona Saninha conhece um rapaz novo, bonito e na idade de hormônios em erupção.
Mary del Priore foi atrás de cada detalhe da escandalosa morte de Euclides da Cunha pelo amante de sua esposa. E para que o leitor possa entender toda a situação, ela faz uma contextualização sobre como eram vistos os casamentos na época, qual era o papel da mulher nesse negócio e como era visto em casa e na sociedade, bem como era o papel do marido e as obrigaçõees de cada um.
À medida que avança a leitura, lembrei-me do caso do ‘primo Basílio’ e como toda a história se repete na infelicidade das mulheres em sua ‘função social’. Ah, também tem o caso da Anna Karenina, bem, exemplos têm de monte, mas voltemos à Dona Saninha. A diferença aqui é que Euclides parecia fazer pouco caso de Dona Saninha, e na história do primo Basílio o marido ainda amava a esposa traidora.
“Dona Saninha disse que tinha por Dilermando uma grande paixão, pois este lhe dispensava sempre atenções, afetos e carinhos que não encontrava em seu marido, o qual só vivia para os livros.” Pág 18
Esse trecho é de deixar qualquer louco por livros preocupado… por um instante a gente dá aquela olhadinha no horizonte e faz uma busca rápida na memória em como andamos nos comportando quando temos que largar o livro...
“A razão para esse tipo de crime era inexplicável, sendo atribuída s uma forma de loucura. A não ser que elas quisessem…” Pág. 70 (pode isso?)
Bem, mas voltando à história, temos que ser justos e assumir que a sociedade também cobrava muito da posição do homem. Ele tinha que impor sua masculinidade, seu lugar de ‘homem da casa’, ser macho em qualquer situação. E penso que a tragédia toda gira em torno disso mesmo. Um homem que não pode ser traído diante de todos e não fazer nada. Pobre Euclides, ainda que ele nem quisesse ficar com Dona Saninha, devia acertar as contas e tomar uma atitude. Até porquê, a posição de desquitados era outro tabu a ser encarado.
“O patriarcalismo não era violento só com as mulheres. Com os homens também. Por um lado acusava-se a mulher. E por outro, entre todos e chacotas, discutia-se o desempenho ineficiente do corno.” Pág. 21
“De nada adiantava pertencer a academia brasileira de letras ou ter escrito Os Sertões, sendo publicamente enganado pela esposa.” Pág. 35
“Euclides tomou a sinistra resolução: ia para matar ou morrer. O importante era o nome limpo.” Pág. 71
A história é tão milimetricamente escrita por Mary que por diversos momentos (diversos mesmo) pensei se não era tudo repertório de história de tv. Por várias vezes temos que nos lembrar de que a história não é uma novela fictícia. O problema no casamento, (até o nome das pessoas), como Dona Saninha e Dilermando se conheceram, a briga com as tias, os encontros proibidos, a confusão no dia do crime, o crime.
E não pára por aí. Você pensa: ‘há, já matou, vai acabar o livro’. Contudo, a história pega mais fogo ainda, com o destino do irmão de Armando, a vida que levou Dona Saninha, e, principalmente, o próprio Dilermando que tem a vida amargamente marcada por mais tantas tragédias que estão por vir.
Não fosse Euclides quem era no cenário nacional, eu diria que o nome do livro deveria algo em que o Dilermando fosse o destaque da capa, pois ele até que merecia.
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A autora: Mary Del Priore é historiadora e escritora, reconhecida como uma das principais referências em história social e cultural do Brasil. Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorada pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris, construiu uma trajetória acadêmica marcada pelo rigor metodológico e pela capacidade de traduzir a pesquisa histórica para além do meio universitário.
Publicou mais de 50 livros, entre obras autorais, coletâneas organizadas e ensaios. Sua produção intelectual foi amplamente reconhecida com importantes prêmios literários, incluindo múltiplas edições do Prêmio Jabuti, um dos mais relevantes da literatura e do pensamento brasileiro. Mary Del Priore também atuou no ensino superior, lecionando em universidades como a USP e a PUC-Rio.
