Manifesto… aos políticos, artistas, parlamentares… ao povo, a mim, a você… a tudo e a todos.

Ezio Flavio Bazzo mostra um pensar ousado e radical, sincero ao extremo quando coloca em palavras toda sua percepção da realidade e da podridão do teatro social. Sem pudor, sem medo de ser feliz, ou cansado de ser infeliz, as palavras, adjetivos, classificações e humilhações rolam soltas ao longo do livro.

 

A conversa é direcionada ao “populacho”, entendido por mim que seria, em especial, aos políticos, ele faz uma descrição dos modos desse populacho, seus trejeitos, pensamentos, gostos, culturas ou falta delas e tudo o mais que gira em torno de sua vida ou do que o político pensa fazer girar. Bazzo quer entender o motivo das atitudes ridículas e hipócritas dessas pessoas.

 

Bazzo diz que vê esse ‘personagem’ ao percorrer o mundo, o observa em cada exemplar espalhado pelas causas das tragédias sociais, “ganâncias fenomenais de um único dono, conseguidas com um trabalho podre e corrupto. E o mais interessante é que estás sempre amparado pela maior das farsas, aquela farsa que em todo o mundo é conhecida pelo nome de ética. Quê é a ética além do véu cinza que contém e disfarça teus atos de corrupção e incompetência?”.

 

Suas falas indignadas são quase que vomitadas para o leitor, como se fosse sua última oportunidade de dizer tudo o que pensa e sente. A ironia está em cada linha. Bazzo utiliza o uso de diminutivos de modo a literalmente diminuir sobre o que fala: “essa medicinazinha incompetente, reacionária e cerimônia…”; “deixe de ser idiota, patriotazinho de merda...”.

 

Fala em como tudo se repete ao longo dos anos, independente do lugar, do imperador ou dos que os escolheram para dias as suas próprias regras. Agride a correlação mesquinha, arbitrária, falsa e arraigada de chefões de diferentes classes e credos que se odeiam, mas que se sustentam e sorriem.

 

“Mesmo quando estive ao teu lado, nunca me viste como sou, mas sempre como desejava que eu fosse.”

 

E sobra para todo mundo nesse desabafo raivoso, sendo assim, não podia deixar de criticar os eleitores, o povo comum: “e tu, quando não te vagas de medo de desafiar aqueles que te massacram há séculos, fazes tudo para chegar a ocupar um lugar entre eles. Estas são as duas razões fundamentais de tua inércia e de tua tolerância.”

 

“Infelizmente um ateu afirmando que tu mesmo é teu Deus e teu diabo”.

 

Ezio aponta no peito as atitudes e podres e os péssimos exemplos. Acaba até com você, diante de sua casa, sua família e da sociedade. Um enaltecimento à tua mediocridade.

 

“Mil vezes um simples panfleto, mas libertário, que uma obra literária que consumiu a vida e os testículos de seu autor e que serve apenas para fazer passar o tempo, fazer rir ou chorar a uma burguesia histérica que não consegue dormir sem antes deglutir um texto, uma página ou um capítulo.”

 

Após um momento de profunda, de verdadeira força para conseguir e poder classificar, xingar, espezinhar o populacho, vem a confissão da consciência de que já seguiu seus passos, já manteve em suas mentiras para que pudesse o conhecer melhor, mas sempre mantendo a distância segura como se fosse um ser radioativo.

 

A escrita em segunda pessoa permite que se sinta a ira, a indignação, o desprezo àqueles a quem o texto se destina, bem como a gente quase consegue ver suas expressões e euforia, sua fala rápida e sufocante até quase perder o fôlego ao pronunciar uma série de pensamentos que não podem ser retraídos e nem interrompidos.

 

É admirável a forma como descreve alguém ou algo, ou até sentimento, com o uso excessivo de adjetivos, superlativos, diminutivos, comparações que, por mais que não concordemos, são perfeitamente imagináveis e compreensíveis na representação do ele quis dizer.

 

Não poupa o leitor ao fazer diversas citações de pensadores e observadores do mundo e das pessoas como Nietzsche, Pedro Nava, Lao Tse e tantos outros.

 

“A vida para ti resume-se em existir. Já percebeste que as pedras e os cavalos também existem? E que há uma monumental diferença entre existir e viver?”

 

Confesso que entre tantas descrições e adjetivações, fala muita coisa a se pensar, joga na cara muitas verdades pensadas de forma clara, dura e sem rodeios. Mas por outro lado, a meu ver também emite um bucado de besteiras. Claro que não temos que concordar com tudo, mas que ficam vários pontos de reflexão, ah, isso ficam.

 

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Livro escrito no Brasil em 1977/78 e publicado pela primeira vez na Cidade do México, em 1979.

 

O autor: Nasceu em Santa Catarina, em 1949, e mudou-se ainda criança para o Paraná. Formado em psicologia, possui mestrado em psicologia clínica na Universidade Nacional Autônoma do México e doutorado na Universidade Nacional de Barcelona. Pós-doutor pelo Instituto de Altos Estudos da América Latina, em Paris.

 

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