Senhor, o que fizemos com seu mundo?

   Essa foi o pensamento mais forte que tive ao ler esse livro. O que nós, seres humanos, sentimos realmente quando fazemos mal a alguém? Qual nosso propósito? Qual nosso prazer? 

   Em busca de sentido é um livro realmente tocante e forte. Faz a gente parar para pensar, muitas e muitas vezes. Viktor Frankl foi um psicólogo que se viu em uma situação completamente inusitada para aplicar e estudar sua área de estudo a fundo. Foi prisioneiro num campo de extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial, onde perdeu parte da família e onde observou tantos as atitudes de outros prisioneiros. Onde a única coisa a perder era a própria existência. 

   Ao chegar, passam a ser ninguém, quem quiser ser, basta adotar outro nome ou profissão. Não importa, pois daquele momento em diante, são apenas um número. Lutam diariamente para manter uma identidade quase perdida. Há um humor negro em suas palavras:

 “Nada mais a perder, se não, uma vida ridiculamente nua.”

   Um dia após o outro, uma dor após a outra, um fôlego depois do outro. As narrativas do que passou lá dentro são fortes demais para serem simplesmente transcritas neste texto. Cada um que leia e sinta no fundo do estômago a realidade sobrevivida de quem esteve nesse inferno. Esse era o cenário ideal para compreender mais a mente humana, sua resistência, suas fraquezas e seu controle emocional. 

   Como suportar tanta humilhação? Como ainda ter dignidade ao ser a qualquer momento pisado (literalmente), espancado, tratado menos que animais abandonados? 

   União, concentração: o importante era tentar preservar a vida. Sentimentos ou qualquer coisa fora disso, não tinham espaço.

Aos poucos, o que causava repulsa perde o sentido. Mortificação dos sentimentos. Insensibilidade emocional, indiferença, apatia. “Só mais um morto. O que posso aproveitar (de suas coisas)? Rolado até o lado de fora. Há pouco estava aqui conversando. Insensibilidade de quem vê e de quem apanha.”

   Viktor usou desse tempo e de suas experiências para observar a fundo como alguns conseguiam levar a diante, porque outros acabavam com a própria vida. Tentou entender a razão de pensar daqueles que os maltratavam. Ao longo de sua jornada, foi trabalhando seu próprio controle emocional e, tentando com muita dificuldade, ajudar os outros a resistir e aguentar o máximo. O sonho de uma vida fora dali era a  razão de todos estarem vivos, suas famílias, coisas que gostavam de fazer, eram o foco que dava força e, se é que pode dizer, ânimo, para suportar mais um dia. 

   E então, quando se está num momento de extrema tortura como essa, que não durou alguns dias, e sim mais de anos, qual é o sentido de continuar a viver? Como continuar a viver? E no final, se saíssem vivos, por que mesmo teriam aguentado tudo aquilo?

   E lá pelas tantas, após anos de confinamento e tortura, a pessoa reage a impulsos reflexivos de sua situação. Irritação pela fome, pelas noite mal dormidas, pela desgraça em que a vida se encontra. Contudo, ainda assim é possível ter um mínimo de liberdade, sentimento e responder com algum raciocínio às situações apresentadas. Ainda ha liberdade interior. 

“Se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas.” Pag 88

“Aquilo que sucede interiormente com a pessoa […] revela ser o resultado de uma decisão interior.” Pag 89

   Mas, sabe quando a gente encontra uma forma tão incrível de sentir, perceber ou fazer algo que queremos passar a todo mundo. E acho que foi isso que o Frank sentiu. Ele escreveu o livro em 9 dias, porque precisava contar às pessoas o que percebeu no campo de concentração, e que poderia ajudar outras pessoas. 

 

Logoterapia

No livro, ele  explica sobre uma forma de terapia neuropsiquiátrico que foi desenvolvida por ele, a Logoterapia e, atualmente, é aplicada em diversos países na Europa, que com isso, e se distanciam  da linha de Freud.

“Se comparada à psicanálise, a Logoterapia é menos retrospectiva e menos introspectiva. A Logoterapia concentra-se mais no futuro, ou seja, nos sentidos a serem realizados pelo paciente em seu futuro.” Pag 123

“Frankl distingue várias formas de neurose e atribui algumas delas à incapacidade de encontrar um sentido e um senso da responsabilidade em sua existência.”

“A pessoa, mesmo que nada mais lhe reste nesse mundo, pode tornar-se bem aventurada - ainda que somente por alguns momentos - entregando-se interiormente à imagem da pessoa amada.” Pag 55

   Frankl ensina como usar uma ‘fuga existencial’ para ajudar a suportar as dores diárias: sentir a pessoa amada. Confesso que sua descrição de como sentiu a presença de sua esposa foi um dos momento mais românticos que ja li. Outro tipo de fuga existencial é lembrar do lembrar o passado

“O sofrimento do ser humano é como algo em estado gasoso. Assim como o gás preenche um espaço oco sempre de modo uniforme e integral, o sofrimento, seja grande ou pequeno, ocupa toda a alma da pessoa, o consciente humano.” Pag 63

“Ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que sofreu injustiça.” Pag 117

 

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