Há muito tempo que queria ler esse livro e enfim ele caiu em minhas mãos. Suas 654 páginas não pareceram grandes para uma leitura que flui por si mesma, gostosa, daquelas que queremos deliciar cada palavra… sim, porque o uso da língua é belíssimo. Ao mesmo tempo que bem aplicado em sua seriedade e complexo linguístico, Tolstói consegue fazer uma escrita cotidiana mas rica em sua estrutura e regra.
Escrito entre 1873 e 1877, tem uma narrativa fluida de modo que nos faz adentrar no interior do pensamento e sentimentos dos personagens como se estivéssemos a conversar com eles sobre suas questões interiores.
A história se passa em uma Rússia que estava em época de modernização e mostra como é a vida de diferentes classes na sociedade da época, mas classes que se interligam ao longo do romance. Já de início há o problema familiar de Stiepan Oblónski, que trai a esposa com a ex-governanta e por isso passa por um grande tormento em casa. Stiepan, ou ativa, não é uma pessoa de grandes posses e está sempre por dar seus pulos com relação à família e empregos.
Não é à toa que Tolstoi começa o livro com “Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”. Toma essa.
Por outro lado, a família de Dolly, sua esposa, é possuidora de bens e títulos e está sempre às voltas buscando o casamento das filhas com merecedores pretendentes. Ainda era época em que os rapazes frequentavam a casa da moça a que estavam interessados para conhecê-la melhor. Contudo, muitas vezes mal se falavam, trocavam olhares e duas ou três frases e pronto. Até que o pretendente já tinha que se decidir e comunicar sua intenção de casamento para a moça. Coisa de doido!
Bem, além dos costumes da época, Ana Karenina é aquela mulher invejável. Precisa em tudo o que faz e fala, atraente mesmo quando não quer ser, inteligente e bonita. Casada com um poderoso que atua no governo, ela tem um filho mas é daquelas mulheres que, apesar da aparência, é infeliz pela vida que leva. Tendo que aparecer em eventos sociais, bailes e reuniões pela posição social que ocupa e, claro, por sua estimada presença, mas são encontros em que ela não faz questão de estar.
Ana descobre o amor de verdade quando conhece Aleksei Vrónski, o antigo pretendente de Kitty, a irmã de Dolly. Por ele Ana se separa do marido e vive verdadeiros momentos de angústia e desespero por não conseguir viver plenamente junto ao seu novo amor. A sociedade não a aceita, viram-lhe as costas, falam mal até não poder mais. Ela fica longe do filho e não se dedica inteiramente à filha que tem com Vronski. Ou seja, não vive bem com o antigo, muito pior com o atual, apesar de o amar. Sua vida se desfaz em não mais viver.
“Aquele exemplo fazia-a compreender que, para vir a ser feliz, tranquila e boa, como desejava, tinha de se esquecer de si mesma e amar o próximo.”
Apesar da história de Ana ser intensa e revoltante, quem eu mais curti na trama toda foi Konstantin Liévin. Também pretendente de Kitty, mas rejeitado enquanto Vronski ainda estava no páreo, Lievin é uma pessoa simples em tudo. Mora em uma fazenda, é prático e direto em suas relações. Passa o livro todo questionando e criticando a vida cosmopolita em seus costumes e aparências, o que em quase tudo tem razão. Apesar de sincero em seus sentimentos e atitudes, passa por grandes questionamentos dele com ele mesmo sobre como deve agir, o que esperam que ele faça, se está condizente com suas convicções ou não… enfim, Liévin trava monólogos profundos sobre suas impressões e ideias.
Tolstoi traz como pano de fundo a reflexão de Lievin sobre a situação agrária da Rússia, propriedade e processos trabalhistas, o operariado e a economia rural. Ele se questionava sobre a forma de contratação de seus ajudantes na fazenda, a funcionalidade e o modo de vida dessas pessoas. Lievin queria ter maior produtividade, mas ao mesmo tempo gostaria que as pessoas se sentissem satisfeitas com seus trabalhos, além de que, pessoas felizes produzem mais. E então vem toda uma série de pensamentos sobre como ser melhor patrão, divisão de lucros, quais os objetivos de quem presta o serviço. Queriam eles melhorar de vida? Ou apenas ter o do dia já bastava? Gostariam de repartir os lucros mas também se envolver mais com a empreitada ou era melhor ficar apenas com o valor da jornada e ir embora sem preocupações?
“É um absurdo não aceitarmos a vida como ela é, deixarmo-nos dominar pelo passado. Há que lutar para viver melhor, muito melhor.”
E quando Lievin, se depara com a morte e tem divagações angustiantes sobre razão da vida? Ter fé ou não ter fé?
Maravilhoso!
“Não posso viver sem saber o que eu sou e com que fim fui lançado a este mundo” “E visto que não odiei chegar a sabê-lo, torna-se-me impossível viver.”
“Agora digo que conheço o sentido da mina vida: é preciso viver para Deus e para a alma. E, apesar do que há nisso de evidência, é misterioso e magnífico!”
Uma das reflexões que observei e achei uma sacada genial de Tolstoi foi no momento em que as personagens precisam decidir ou avaliar alguma situação. Inicialmente, as decisões tomadas pareciam claras e apresentavam respostas para toda a angústia, mas logo a certeza se perde ao encontrar com uma questão inusitada, ao se ouvir uma notícia inesperada, e toda decisão se inverte, parecendo até ridícula a assertiva e de antes. É incrível como a gente segue o fluxo e no início também acha que está tudo muito certo, mas depois, com as novas explicações sobre as mudanças ocorridas, somos facilmente convencidos de que agora é que está certo o que deve ser feito, e nos sentimos até bobos em concordar com a ideia anterior, assim como o personagem também se sente.
Outro domínio de Tolstoi que me impressionou foi como as discussões sobre economia, política, até mesmo religiosidade ou coisas do dia a dia, são aprofundadas nos diálogos. Não é uma questão apenas de expor fatos, mas são verdadeiras filosofias sobre esses temas. E o mais legal de tudo é ver o escritor defender um ponto de vista de um personagem e na mesma hora ter que contrapor tudo na fala de outro personagem, isto é, quem escreve tem que ser uma pessoa e defender suas ideias mas também deve ser as outras e ainda trazer cada uma sua verdade, e tudo sem sair da razão.
Um livro realmente denso e intenso. Não mais um daqueles de romance de época em que a questão é apenas saber quem gosta de quem, como gato e rato e suas depressões amorosas. Uma aula de mudanças sociais, preconceito, respeito, critica social…
TRECHOS
“O respeito foi inventado para esconder o lugar vazio onde deveria estar o amor…”
“É um absurdo não aceitarmos a vida como ela é, deixarmo-nos dominar pelo passado. Há que lutar para viver melhor, muito melhor.”
“Aquele exemplo fazia-a compreender que, para vir a ser feliz, tranquila e boa, como desejava, tinha de se esquecer de si mesma e amar o próximo.”
“A hipocrisia é capaz de iludir o mais inteligente dos homens, mas a criança de mais limitado inteligência logo a descobre e por ela sente repulsa, por mais hábil que seja a simulação.”
“A maior parte das vezes discutimos unicamente por não sermos capazes de compreender o que o nosso interlocutor pretende demostrar.”
“Não posso viver sem saber o que eu sou e com que fim fui lançado a este mundo” “E visto que não odiei chegar a sabê-lo, torna-se-me impossível viver.”
“Agora digo que conheço o sentido da mina vida: é preciso viver para Deus e para a alma. E, apesar do que há nisso de evidência, é misterioso e magnífico!”
“Que teria sido de mim, que teus sido de minha vida, se não fossem essas crenças, se não soubesse que é preciso viver para Deus e não para as minhas necessidades? Teria tornado, teria maus, teria mentido. Nenhuma das principais alegrias da minha vida teria podido existir para mim.”
