Tá, vamos dar uma passadinha pela história e depois dou meus pitacos. O primo Basílio foi escrito por Eça de Queirós em 1878 e faz uma ‘fotografia’ da sociedade burguesa de Lisboa.
Luísa, moça fina, apaixonada e rica, cheia de nada para fazer, é casada com Jorge, um marido super apaixonado, com grana e que trabalha como engenheiro. Eles não possuem filhos e são loucos um pelo outro, possuem carinho, amor e reconhecimento mútuo. A rotina do casal é, receber e fazer visitas, falar da vida alheia e esperar o próximo baile para expor à sociedade sua roupa impecável e expor “a beleza da pele branca do ombro” de Luísa.
Lá pelas tantas, Jorge precisa viajar a trabalho, e o que era uma ausência de poucos dias transforma-se em meses. Em uma época em que o celular e a internet não participaram da história, toda a comunicação era feita por cartas ou recados de conhecidos.
Enquanto Jorge está trabalhando muito (e se divertindo um pouco também), o primo querido, da infância de Luísa, volta para a cidade após anos morando fora. Bem, não preciso entrar em muitos detalhes, acredito que já deu pra imaginar o que vem a seguir.
A questão é que, dentre alguns empregados que toda família da época tinha que ter, pois não lavavam nem as mãos sozinhos, a Juliana se destacou por sua busca incessante em melhorar de vida. Então, boba que não era, descobriu os segredinhos da patroa e a partir daí segue-se uma sequencia de chantagens, sofrimentos, chororô e ranger de dentes.
Vamos lá, o que mais gostei no livro: a visão de mundo, de existência, de sobrevivência e de realidade da empregada, a Juliana (observação para o fato de que todas em empregadas/serviçais tem nomes que começam com J).
Achei muito interessante a forma como a vida dela é retratada, alguns julgando apenas por uma pessoa invejosa, mas vejo um pouco mais que isso. Eça de Queiroz mostrou a discrepante realidade no dia a dia de uma pessoa que nasceu servindo, cresceu servindo e morreu servindo. A luta dela não era somente por ter o que a outra tinha, mas por ter uma significação maior na sociedade, por ter reconhecida sua dignidade de ser humana, de alguém que sofre, sente, adoece e que também podia ter um pouco de felicidade. Cansada de ser o resto da história, que dormia com as traças e baratas e ainda tinha que atender com satisfação a um mínimo de simpatia aos caprichos do mundo rico. Não é sempre que temos essa visão de mundo tão bem sentida em uma história. Lembrei-me da Ponciá Vicêncio, coitada, na mesma situação… Ah, a Ponciá é a protagonista do livro de mesmo nome da Evaristo Costa (já falamos dele no blog).
O que não gostei no livro: o Basílio. Sacana desde o início. Fica de nhenhenhem até a colega não resistir. Aproveita tudo o que pode e no final…. Ahhhh o final!
