Como algo tão inerte pode incomodar tanto? Essa era Macabéa, a nordestina. Incomodou tanto que teve um livro só para ela, um livro que trazia sua não vivência, sua subvida.

    E a gente, que vai lendo sem entender como alguém pode ter uma existência assim, tão sem significado, sem dor, nem raiva, nem alegria, nem euforia. Nada fazia Macabéa ‘tremer’. Mas, sim, há muitas pessoas assim, que a elas não foi dada a chance de se empolgar, de se indignar. A regra é viver por minuto. E fim. 

    Clarisse entregou toda sua agonia e pensamento ao escritor dentro da escrita. Rodrigo é um rapaz de vida também sem jeito de ser e que precisava falar da nordestina. Mas, antes, ele precisava falar dele. Não conseguia escrever sobre a outra sem trazer à tona seus sentimentos, sua existência, seu não lugar no mundo. E talvez por isso precisava falar tanto de Macabéa, pois se via em vários dos jeitos dela, contudo, ainda assim, ela conseguia ser menos alguém que ele. E era absurda sua forma de viver.

    Para Rodrigo, escrever é seu último refúgio, seu jeito digno de ser útil. Fala  sobre sua vontade de escrever o que vai escrever. Entre confissões e desabafos, explicita o que sente sobre o ato da escrita e como o faz. Não há compromisso com nada. Pura Clarice em prosa com o leitor.

 

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.” Pág. 9

 

    Rodrigo precisa falar.  Sente dever em relatar a história de uma nordestina que viu por ai, que surgiu na sua mente, e que não pode deixar de ser escrita. Uma personagem simples, tão simples que não pode ter nem mesmo palavras requintadas em sua história, pois talvez não poderia lidar com elas.

 

“É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordais? Mas não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro - e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome.” Pág. 13

 

    A pobreza da história é tanta que Rodrigo vai adiando sua contação sem coragem de encarar os fatos. Mas necessita falar, se não, sufoca. Como Clarice, o autor do livro não se intitula um profissional, escreve o que quer. Dilema sobre si, sobre seu escrever, sobre como o faz e porquê o faz. Compara-se à nordestina. Para falar dela, precisa se sentir “próximo” ao seu mundo: não fazer a barba, vestir-se de farrapos, dormir pouco, ter olheiras. O autor que vive a personagem. Escreve para não ter que aguentar a si mesmo. Mudar a rotina. 

 

“Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. “ Pág. 18

 

    A moça é e não é. Não sabia que era infeliz. Acreditava em algo, não se sabe o quê nem em quê. Só acreditava. E vivia assim. Isso incomoda o autor, pois ela além de tudo, não reclama. Ele tem raiva desse comportamento de alguém que sofre e não reage. Ele a odeia por seu jeito de ser, mas não consegue se desvencilhar, estava preso. Odiava e amava.

 

“Através dessa jovem dou o meu grito de horror à vida. À vida que tanto amo.” Pag 29

 

    A nordestina apenas existia, como um cachorro. Era mulher, mas parecia que nem para isso tinha vocação. 

 

“A mulherice só nasceria tarde porque até no capim vagamundo há desejo de sol.”

 

    Macabéa sabia apenas que vivia. Não havia pensamentos ou reflexões sobre problemas, se era triste ou feliz, se tinha algo para melhorar em sua vida ou se viver era aquilo mesmo. Dia a dia, respondia ao que precisava ser feito, sem nem saber o que precisava ser feito, apenas fazia, como um cachorro que sabe abanar o rabo, sem saber porque sabe, mas faz. Ela sabia.

 

“Assim como ninguém lhe ensinaria um dia a morrer: na certa morreria em um dia como se antes tivesse estudado de cor a representação do papel de estrela. Pois na hora damorte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante da glória de cada um […]” Pág. 25

 

    A verdade, jogada na cara, a vida dela representando tantas pessoas… tantas estrelas. Mas será que não deveríamos ser um pouco, só um pouquinho, Macabéa e deixar de tanta preocupação, tanto pensamento, tanto sentimento...

 

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