Um pequeno livro, com apenas 59 páginas, entretanto, mais perigoso que muitos calhamaços.

 

A arte de ter razão foi escrito em 1830, mas publicado em 1864. Schopenhauer lista 38 estratagemas para vencer uma discussão, seja de forma lícita ou ilícita. O início do livro é um pouco confuso e pode fazer com que alguns até desistam de continuar a leitura. Mas afirmo que são necessárias as explicações iniciais e mais ainda, é muito importante que você persista (rs)!

 

Já nas primeiras páginas estão explicações sobre o que é erística (debate em que se tens razão, ainda que as produções em si não sejam verdadeiras mas aparentam ser). Aqui já começa a brincadeira ao ler que, o “objetivo é ter razão”, ainda que a conclusão seja falsa. Opa, como assim? Pensei que fôssemos falar de coisas sérias… e justas!

 

Schopenhauer explica o que é Lógica (para chegar a conclusões verdadeiras e apodícticas, irrefutáveis) e Dialética (conclusões que valem e que são correntes como verdadeiras em forma e conteúdo). E segue com a mais perigosa de todas (a meu ver), a Sofística (a conclusão é falsa, mas aparenta ser correta). O objetivo sempre é o reconhecimento que se adquire por meio das proposições.

 

O verdadeiro pode resultar de premissas falsas, mas o falso jamais resultará de premissas verdadeiras.

 

Aqui coloquei de modo bem estrito e simplista, mas as explicações são muito mais didáticas e abrangentes, de modo que são dados exemplos em alguns casos para ajudar na compreensão. Schopenhauer faz até uma crítica severa à obra de Aristóteles sobre a dialética: 

 

Aristóteles não definiu o objetivo da dialética de maneira tão prévia quanto eu o fiz.

 

38 formas de vencer uma discussão pode parecer muita coisa, mas a cada uma que lemos podemos ver que é possível que aquela situação realmente ocorra. Em algumas, o enfoque está na forma de pensar, em outras no modo de reagir, há aquelas em que o segredo é como fazer seu oponente racionar e concluir do modo que você deseja.

 

Em todas, há visão real de combate nessas discussões, pois não são vistas como debates comuns, mas sim como batalhas, tanto que o termo OPONENTE está em todos os estratagemas. Ou seja, o negócio é vencer ou vencer.

 

“Quem debate não luta necessariamente pela verdade, mas, antes, por sua proposição, com ou sem razão, não podendo ser de outra forma.”

 

Anotei uma e outra estratégias que me chamaram a atenção, algumas até fazendo rir, sim, pois ele usa de ironia em todo o livro:

 

  • Estratagema 4

Se vc já chegou a uma conclusão, não deixe o oponente perceber. Diga as premissas uma a uma de modo de que vá concordando aos poucos, até que seja admitido tudo o que se necessita.

 

  • Estratagema 7

Fazer questões, muitas perguntas ao mesmo tempo, que vão conduzindo as respostas com o intuito de demonstrar a verdade  a que se quer chegar. “Os que são lentos de compreensão não podem seguir com precisão o debate, e não se darão conta de eventuais falhas e lacunas na argumentação.” 

 

 

Nessa guerra de ideias, observar as expressões que o oponente e nós mesmos usamos é importante, sendo mais uma arma utilizada em busca da vitória.

 

Vejam só o absurdo do Estratagema 27:

Se o oponente fica bravo de maneira inesperada com um argumento, então deve-se insistir nele com mais afinco, não simplesmente por ser bom deixá-lo com raiva, mas porque se supõe que o ponto fraco de uma linha de pensamento foi atingido e nesse ponto o oponente está mais vulnerável para ser atacado.

 

A surpresa em todo o jogo é que não importa se existe verdade, ninguém realmente está em busca dela, até mesmo porque, Schopenhauer fala sobre o que é saber a verdade, o que é realmente ter razão, quando pode haver discrepâncias de visões e certezas sobre a mesma questão o todos estarem com a sua verdade.

 

“Ter razão é por si só insuficiente diante da mentalidade humana e pode não ser nem necessário, quando realmente quase nunca estamos certo”, há estratagemas para esses casos.

 

“Mas a dialética como tal deve apenas ensinar como se defender de todo tipo de ataques, especialmente os desonestos, bem como é possível atacar o que o outro afirma sem se contradizer e, principalmente, sem ser refutado.” 

 

 

Contudo, Schopenhauer não traz essa vitória como algo simples do cotidiano. Ele mostra que o ser humano é vaidoso e para valer de sua vaidade, usa de desonestidade e imperfeição. 

 

“Desonestidade inata: quando percebemos que não estamos certos e que o oponente tem argumento que destrói nossa proposição, então sustentamos a fala ainda que sabendo estar errada e esperando um momento da conversa em que ela se torne verdadeira.”

 

“A vaidade inata, particularmente sensível à capacidade intelectual, não quer que aquilo que apresentamos de início se revele como falso, e o apresentado pelo oponente, como correto.” 

 

“O debate é o instrumento para a descoberta da verdade."

 

De toda forma, me parece ser imprescindível que se tenha algum conhecimento, sabedoria, até mesmo para enganar. Mas confesso que durante a leitura fiquei me perguntando porquê mesmo eu iria ficar discutindo apenas para ter razão, e não para realmente esclarecer algo, chegar a uma conclusão verdadeira ou a um consenso… talvez o título do livro pudesse ser A arte de ser insuportável 😣 !

 

“Na maioria das vezes o que nos é desvantajoso parece absurdo só intelecto.”

 

 

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